O trabalho dignifica o homem

Nos últimos dias, estive pensando em um ditado que ouço há muito tempo: o trabalho dignifica o homem. Tenho me perguntado, então, qual homem? Não acho que essa afirmação seja totalmente verdadeira, pois, convenhamos, a maioria dos seres humanos trabalha exaustivamente, mas nem por isso é dignificada. A propósito, no mundo inteiro tem muita gente que iniciou e ainda inicia o trabalho duro na infância com jornadas bem distantes de serem dignas. Isso me fez lembrar de rostos e narrativas específicas, como a de Darlene, uma mulher de cinquenta anos, que, apesar de ter começado a trabalhar aos oito anos de idade, continua sonhando em conhecer a dignidade. Darlene não gosta de falar do passado, pois nas lembranças o excesso só se deu no trabalho: na limpeza das privadas, na limpeza do piso, na limpeza das fraldas de outras crianças, na limpeza das calcinhas com sangue das patroas e na limpeza das cuecas freadas de bosta. Darlene teve que aprender a cuidar dos outros, antes mesmo de aprender a cuidar de si, teve que lidar com um tanto de merda bem cedo. Trabalhou. Trabalha. Tudo isso começou quando saiu do Bacuri, interior de Tefé, para morar em Manaus com a família – a mãe, o pai e os nove irmãos –, buscavam melhorias e encontraram muitas dificuldades. Nesse período e durante outros que se estenderam, dividiu um par de calçados com outras três irmãs, por isso não podiam sair juntas – eram oito pés, mas apenas um par de sapatos.

O trabalho dignifica o homem

Imagem da obra Segunda Classe, de Tarsila do Amaral. (Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira)

A falta. Além disso, todos juntos tiveram que driblar a fome. A salvação era a sopa distribuída pela prefeitura, entre uma ou duas vezes na semana. Em outras ocasiões, os irmãos se reuniam para juntar do chão as verduras jogadas na feira. A falta. Depois da morte do pai, uma senhora ofereceu um acordo à mãe de Darlene no qual a mão de obra da menina renderia um pouco de dinheiro e a dona se responsabilizaria pela frequência da criança na escola. Mas os afazeres não terminavam, iniciavam de manhã e atravessavam a noite. Era sempre a primeira a acordar e a última a dormir. Não havia tempo para ir ao colégio. As outras irmãs seguiram o mesmo rumo. Trabalhar para comer. Trabalhar para sobreviver. Essa rotina perdurou. Darlene aguardava ansiosa pelos dias de folga, era o momento em que davam permissão para encontrar a família, mas não visitava os irmãos e a mãe toda semana. Depois de um período trabalhando, comprou dois pares de sapatos, eles eram só dela. Tinha desejo de pertencer a algum lugar fora da casa dos patrões. Trabalhar e sobreviver. Trabalhar e ainda pertencer. “Gosto de me arrumar, de ser boa pra mim, ninguém vai me valorizar, mas eu me valorizo e valorizo o dinheiro do meu trabalho. Foi muito suor. É muito suor, minha filha. É cada uma que a gente passa”. Ela me disse. Disse também: "Faça um bom trabalho e o reconhecimento virá. Fiz assim por onde passei, foram muitas casas, infelizmente, uma delas era de dona Mísera. Uma amiga dela me indicou, disse que eu fazia um bom serviço. Quando a conheci, ela me apresentou logo a casa, falou como gostava da limpeza e do que precisava. Já tínhamos acertado o valor, porém, a patroa quis incluir outros serviços com o discurso de serem só umas coisinhas. Chegada a hora do almoço, a dondoca veio em minha direção e estendeu as mãos diante de mim com aquilo que foi a minha refeição: meia banda de mamão. Engoli. Engoli ligeiro. Engoli pra não sentir o gosto insosso da minha vida naquele momento". Concluiu.

Então, trabalhar para comer? Trabalhar e ainda sobreviver. Trabalhar e pertencer a quê?


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