Eu, estrangeiro em mim

Um dia, acordei, olhei-me no espelho e vi um corpo, que diante dos meus próprios olhos, não reconheci: aquele corpo era alheio, uma extensão desconhecida incapaz de comportar certos desejos.  

Não sabia se isso era efeito do tempo em um corpo ou se era resultado do (des)pertencimento de uma experiência humana ínfima e contraditória.

Paraísos. 

Uma existência quase inteira com eles e, naquele momento, já não estavam ali.

Estranhei. 

Antigos sonhos, sonhos antigos — Puer-is — berravam e atravessavam meus sentidos. Tentei acalentá-los, dizer quem agora sou. Afinal, quem sou, neste corpo, agora?

Berramos. 

Fora. Dentro. Barulho. 

Vazios preenchidos de contrariedades, em um território desconhecido, eu -– estrangeiro, em mim. 


Imagem da obra Narciso, de Franz von Stuck. (Folha de poesia)

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