Tatuagens
O maior órgão do corpo humano é tão sensível quanto o estômago, fala mais do que as palavras e funciona como uma camada protetora que nos revela e nos ornamenta.A onça-pintada, por exemplo, tem desenhos exclusivos em todo o corpo e isso particulariza cada uma delas. Coisa da natureza…! Ao contrário delas, nós, seres humanos, não viemos tão pintados de fábrica, mas não demora muito para sermos marcados, é um ritual contínuo.Assim, ao longo da vida, no avesso ou na superfície da pele, recebemos adornos da dor e do prazer, da tristeza e da alegria, da perda e do ganho, do medo e da coragem, do início e do fim, da vida e da morte. Independentemente do sujeito, todos trazem na pele pedaços da vida, pedaços de vida.Pedaços que se revestem em corpos, em corpos que são palavras, em palavras que são representações.Representações – vestígios de histórias que entrelaçam encontros e desencontros, a falta e a presença, o desejo e a realização, o amor e o desamor, o concreto e o abstrato. Tudo isso carimba a pele, o maior órgão do corpo humano, detentora de formas, texturas, cores, buracos, cicatrizes, feridas, sinais, cheiro, memória, vida.Pele – porta do corpo.A primeira porta para o estabelecimento do vínculo entre um recém-nascido e outro ser. No mundo, capta fotografias de sensações e sentimentos por meio do contato, isso não é à toa: toda experiência perpassa o corpo, é travessia.Lembremo-nos de que experiência e corpo não são imutáveis e, mesmo sabendo da transitoriedade de tudo, nessa passagem onde embarcamos, manifestamos o desejo de manter vivas as lembranças, a essência de algo, a beleza das coisas. Tentamos preservar pedaços daquilo que achamos nos pertencer ou compor, seja em fotografias, seja no rito, seja na pele. Cada um encontra a sua maneira de preservar o simbólico.Inscrevemos no corpo representações.Representações que podem ser camufladas por essa barreira protetora de riscos, mas a olho nu e pelos nossos próprios olhos não passam despercebidas. Na pele, na nossa pele, enxergamos as vísceras, as vísceras de corpos que deixam ecos de palavras. No espelho, contempladas por eu-narciso. Ecos.No presente, no corpo, no corpo presente, há vestígios de outros corpos, de outros tempos e de agora. Em todos os corpos, aparentes ou não, integram sobreposições – tatuagens.Por essas e por tantas, afirmo: Todo corpo é adornado – tatuado. Há palavras no corpo, há palavras do corpo, e as palavras do meu corpo sorriem, dançam, choram, sofrem, brincam, gozam.
a. Rillyane Célia

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