Um dia novo sempre vem


Imagem do Rio Negro, em Manaus. (Rillyane Célia)

Em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, há uma mulher assombrada. A assombração independe das paisagens ou delimitação territorial. As mulheres, ao longo do tempo e em diferentes espaços, experienciam o horror que tem como agente o selvagem. 
O mundo está repleto deles e aqui no Amazonas não é diferente. Um estado quase encantado composto por belezas singulares, assim como as águas que não se bicam, uma de coca-cola e a outra de caramelo, e por mistérios que ultrapassam os limites dos rios. Nessa terra quase quimérica, cujas narrativas fictícias refletem as profundezas e abismos das violências do homem na vida real, encontram-se meninas e mulheres amazônidas atormentadas. 
Há episódios que só moradores da região costumam saber, alguns fazem vista grossa, preferem não se comprometer. Mesmo assim, o cotidiano revela a cobiça e a violação  das nossas meninas pelos agentes da barbárie, retratados na figura mítica do Boto. 
Na história, o Boto sai do rio modificando a sua forma de animal aquático e se transforma em homem para  atrair uma mulher que fica enfeitiçada por ele. Logo depois, retorna às águas, e ela fica grávida. 
Uma narrativa bastante utilizada, principalmente, em comunidades no interior do estado para fundamentar e, com isso, encobrir a história de uma gestação que é fruto da violência contra crianças e adolescentes. Na maioria das ocasiões, a atrocidade é cometida por alguém da família ou próximo a ela, eis a causa de tanta omissão. 
Os bárbaros são protegidos. Por quem? Por eles mesmos, não são deuses, mas são detentores do poder. Não é à toa que repousam suas cabeças sobre travesseiros com sonhos de impunidade. Depois da violência, os bárbaros retornam à tranquilidade de suas casas e, da mesma forma, o Boto volta ao rio. 
Aliás, eles estão em todos os lugares e camadas sociais, muitos deles têm cargos políticos, são prefeitos, vereadores, governadores eleitos e até reeleitos do nosso estado. 
Por outro lado, amedrontada, coagida e até influenciada a não  revelar a identidade do criminoso, a menina, em diversas situações, sequer tem consciência de ser vítima de tamanha violência, apesar disso, recorrentemente precisa gerar–parir a morte dela mesma. Sim, morte! 
Dessa maneira, meninas e mulheres repousam os corpos e mentes em leitos de pregos. Pregos que abrem buracos e contaminam o interior de um corpo, desde cedo, crucificado. Às margens do rio, corpos femininos sentenciados.
Marta veio de lá. Durante um dos nossos encontros, quis me contar sobre a sua morte: de manhã, banhava-se nas águas do negro rio, depois foi à roça, de repente, a escuridão se fez. Falou das aranhas andando por todo o corpo, da paralisia, da dor, da violência, da morte. 
Contou também que aos sete anos de idade, logo depois do ocorrido, elaborou um plano. Cumpriu. Incendiou a cozinha rente ao único quarto da casa, enquanto o “boto-homem”, nome mais nocivo, ao meu ver, dormia. Desejou que tudo ali dentro explodisse na tentativa de encontrar alguma cura, ainda não entendia muito do mundo, porém já tinha conhecido a crueldade.
Não houve explosão. Lamentou, ainda lamenta. Não houve morte, a não ser a dela, naquele dia pavoroso. Ele permaneceu vigoroso, magnificente. Ela, ao contrário, morre e nasce, morre e nasce, morre, morre, morre de novo, tenta nascer. Resiste. Luta constantemente para costurar o corpo, a ferida, a vida. 
Essa não é apenas a dor de Marta, é também de Maria, de Isabel, de Juliane, de Ane, de Pricila, de Letícia, de Bruna, de Francisca, de Carol, de Diana, de Patrícia, de Ketelen, de Cássia, de Vanessa, de Jéssica, de Elen, de Zenaide, de Conceição, de Nara, de Olívia e de milhões de mulheres assombradas que lutam para subsistir, viver, apesar do trauma. 
Antes de escrever este texto, ouvia música e atentei à passagem “Um dia novo sempre vem” da composição “Boa reza”, de Vanessa da Mata. Pensei na frase em relação ao conteúdo da minha primeira publicação, e a verdade é que o dia nem sempre amanhece para as mulheres, como não amanheceu para Hariel, amiga querida, brilhante e mais uma entre milhares de mulheres assombradas. 
Escrevo estas palavras não só para lembrar de amanhecer, mas também para manter vivas aquelas que anoiteceram. Despeço-me com o desejo de ter te cantado até aqui, pois os assombros não findam, em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, há uma mulher assombrada.

a. Rillyane Célia

Comentários

  1. Muito boa leitura, nos leva a refletir sobre o que estamos fazendo para sermos melhores, a vida que só temos uma, e ao mesmo tempo inúmeras oportunidades de vivermos a vida hj! 😉

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